No último sábado (31/01), uma ação simbólica e potente em defesa da preservação do oceano marcou o pré-carnaval de rua de Fortaleza. Idealizada e articulada pelo coletivo Nossa Iracema, a manifestação reuniu voluntários, ativistas e coletivos ambientais no entorno do Aterrinho da Praia de Iracema, local de apresentação de shows em razão do pré-carnaval, em um protesto que denunciou a poluição oceânica, o despejo irregular de esgoto e a falta de políticas públicas eficazes para a proteção do litoral da capital cearense.

A mobilização começou em frente à área da Estátua de Iracema Guerreira, onde os participantes abriram faixas com mensagens como “O oceano não é lixeira”, chamando a atenção do público que circulava pelo local. Durante a ação, integrantes do coletivo utilizaram um megafone para falar sobre os problemas atuais enfrentados pelo litoral e cobrar respostas do poder público sobre soluções para essa problemática.

Segundo André Comaru, fundador do coletivo Nossa Iracema, a iniciativa reforça a urgência de tratar a pauta ambiental como prioridade. “A gente não está falando de um problema isolado ou pontual. A poluição do oceano é resultado de ligações clandestinas de esgoto, da ausência de educação ambiental, da falta de fiscalização e de políticas públicas contínuas. É uma responsabilidade que deveria ser compartilhada entre poder público, iniciativa privada e sociedade civil”, afirmou.

O ponto alto do protesto ocorreu quando os participantes da ação se aproximaram do palco principal durante o show do grupo BaianaSystem, banda de afro-rock conhecida por manifestar e defender pautas sociais, e intensificaram a visibilidade do protesto ao chamar a atenção da banda e do público presente, que se juntou e apoiou a manifestação. No momento em que se formou a tradicional roda do público do BaianaSystem, os manifestantes entraram com faixas e chamaram atenção para a temática.

O gesto ganhou ainda mais força quando o vocalista da banda leu a mensagem exibida na faixa em pleno palco, provocando reação imediata do público e dos próprios artistas.

Para André Comaru, a intervenção conseguiu gerar impacto, visibilidade e diálogo sobre um problema estrutural que afeta Fortaleza e diversas cidades costeiras do país. “Não é um luxo nem um problema exclusivo da nossa cidade, mas é aqui que a gente vive e luta. Seguimos cobrando educação ambiental, sinalização adequada, coleta eficiente e, principalmente, ações concretas contra o despejo irregular de esgoto no mar”, reforçou Comaru.

Esgotos irregulares e mancha escura no mar

O problema dos esgotos clandestinos e sem tratamento que deságuam no mar de Fortaleza é antigo e vem sendo denunciado há anos pela imprensa e por coletivos de preservação ambiental. Em janeiro deste ano, com a chegada do período chuvoso, a situação se agravou e ganhou novas proporções alarmantes. Em diversos pontos da orla, como Mucuripe, Beira Mar e Praia de Iracema, surgiram manchas escuras gigantes que se intensificam durante as chuvas, evidenciando o grande volume de lixo e esgoto sem qualquer tratamento lançado no mar, causando contaminação, mau cheiro e transtornos para a população.

Após a grande repercussão das denúncias e cobranças feitas pelo coletivo Nossa Iracema, em especial após um vídeo publicado nas redes sociais pelo fundador do coletivo, André Comaru, que ultrapassou 318 mil visualizações, e divulgado em colaboração com mídias independentes de Fortaleza, como o Oceânicos, a Prefeitura de Fortaleza e o Governo do Ceará anunciaram que durante a semana vigente, uma reunião conjunta será realizada para discutir as manchas escuras que voltaram a aparecer no litoral da Capital. A informação foi divulgada pelo prefeito Evandro Leitão, durante coletiva realizada no Paço Municipal, na última quinta-feira (29/01), durante o anúncio das ações da Operação Quadra Chuvosa de 2026.

Segundo Evandro, o encontro contará com a participação de representantes da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), da Agência Reguladora do Estado do Ceará (Arce), da Secretaria do Desenvolvimento Agrário do Ceará (SDA), da Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis), entre outros órgãos envolvidos na gestão ambiental e de saneamento.

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