Turismo esportivo e de aventura movimentou R$ 1,38 bilhão em receita direta no Estado em 2025; em meio à expansão das modalidades de vento e profissionalização do setor, Fortaleza foi escolhida pela World Sailing para sediar o Campeonato Mundial de Vela em 2027

Prática de Kitesurf movimenta litoral cearense. (Foto: Natália Fonteles)

As condições climáticas e a combinação entre mar, sol e vento colocam o Ceará em destaque quando se fala em esportes náuticos, especialmente nos esportes à vela. O litoral cearense virou ponto de encontro para quem busca o turismo esportivo. Kitesurf, wing foil e windsurf são algumas das modalidades em alta e que fomentam festivais e competições nacionais e internacionais, além de movimentarem uma cadeia formada por profissionais, escolas, equipamentos, hospedagem, alimentação, transporte e outros serviços ligados ao turismo.

Segundo dados da Secretaria do Turismo do Ceará (Setur), o turismo esportivo e de aventura movimentou R$ 1,387 bilhão em receita turística direta em 2025, crescimento de 21,2% em relação aos R$ 1,145 bilhão registrados no ano anterior. O número de turistas do segmento também avançou 17,6%, passando de 297.515, em 2024, para 350 mil em 2025.

A relação com os esportes à vela aparece de forma ainda mais evidente em outro levantamento da Setur, divulgado em 2024: dos cerca de 226 mil turistas que haviam visitado o Ceará interessados em esportes e aventura no ano anterior, 60% apontaram o kitesurf como principal motivação da viagem, sendo mais da metade dos praticantes estrangeiros. Os números integram um mercado turístico que, em 2025, gerou R$ 24,2 bilhões em renda no Ceará, segundo dados da Setur.

É nesse cenário de crescimento que Fortaleza se prepara para receber um dos principais eventos internacionais da modalidade. A World Sailing, entidade máxima que rege a vela mundial, escolheu a capital cearense para sediar o Campeonato Mundial de classes individuais de 2027. Entre as categorias estão Formula Kite, iQFoil, ILCA 6, ILCA 7 e regatas de Vela Para-Inclusiva.

“Fase de ouro” dos esportes à vela

Para Daniel Azevedo, presidente da Confederação Brasileira de Vela (CBVela), gerente náutico do Iate Clube de Fortaleza e diretor técnico da Federação de Vela e Motor do Ceará, o momento atual também é resultado da profissionalização que o setor vem experimentando nos últimos anos. “A gente está vivendo a fase de ouro, a melhor fase dos esportes à vela. Posso afirmar que, nos últimos dez anos, entrou uma nova geração de gestores esportivos. Houve também uma aproximação com a academia, por exemplo, com o Instituto Federal do Ceará, que tem um curso de Gestão de Esporte e Lazer. Essa aproximação gerou capacitação, gestão e compliance, que são fundamentais. Agora estamos colhendo os resultados”, afirma Daniel.

Daniel Azevedo – Presidente da Confederação Brasileira de Vela. Entrevista exclusiva para Oceânicos (Foto: Natália Fonteels)

Azevedo também destaca o empenho de federações, associações esportivas e de instituições públicas e privadas, entre elas o Sistema Fecomércio, a Prefeitura de Fortaleza, por meio da Escola Náutica, e o Iate Clube de Fortaleza na promoção e fomento do esporte. Na avaliação do dirigente, essa aproximação contribui para começar a profissionalizar o setor e projetar o Ceará como referência não apenas esportiva, mas também nos campos do turismo e da atuação social.

O calendário também dá dimensão desse crescimento. Até o fim do ano, estão previstos festivais como o Festival GKC Velas no Preá, no Paracuru e no Trairi, além de inúmeros downwinds de longa distância pelo litoral cearense. Na sequência, em 2027, Fortaleza recebe o Campeonato Mundial da World Sailing, apontado por Daniel como um marco para a modalidade no Estado.

A expectativa é que os reflexos do evento ultrapassem as raias dos verdes mares de Fortaleza. Segundo estimativa de Daniel Azevedo, o Mundial poderá movimentar cerca de R$ 45 milhões no Ceará e reunir mais de 1.500 pessoas, considerando atletas, equipes, profissionais e familiares.

A projeção do presidente da CBVela deve-se ao período de aclimatação dos competidores. Atletas e equipes precisam conhecer as condições de vento e mar, treinar e se adaptar ao clima antes das competições. Com isso, parte desse público pode permanecer no Ceará por um período maior, cerca de 3 meses. De acordo com Dnaiel, muitos chegaram por aqui em novembro de 2026, ampliando a circulação de recursos em hospedagem, alimentação, transporte e outros serviços relacionados ao turismo.

A CBVela é a representante oficial da vela esportiva brasileira nos âmbitos nacional e internacional. Filiada à World Sailing e ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB), representa uma modalidade que já conquistou 19 medalhas para o Brasil nos Jogos Olímpicos, oito delas de ouro.
Capacitação

Com o grande crescimento dos esportes à vela, a capacitação profissional também ganha importância. Para Daniel, a profissionalização precisa alcançar tanto a gestão de associações e federações quanto os trabalhadores que atuam diretamente com o esporte e o turismo náutico.

Em maio, durante a programação do evento Sesc Povos do Mar, evento dedicado à valorização dos saberes, das tradições e da memória das comunidades litorâneas do Ceará, houve a assinatura de um termo de intenção de parceria do Fecomérico e CBVela para capacitação do turismo náutico, voltado principalmente para a modalidade do kitesurf.

De acordo com Azevedo, a proposta envolve capacitação na área de segurança da navegação, com diretrizes da Associação Brasileira de Kitesurf e da CBVela, além de formação voltada ao atendimento ao cliente.

Na ocasião, o medalhista olímpico Lars Grael participou do Sesc Povos do Mar 2026 com a palestra “Ajuste as Velas e Desafie os Seus Limites” e acompanhou a assinatura do termo de intenção. Para o velejador, a capacitação profissional é importante para o crescimento do esporte e para o fortalecimento do turismo e da economia no Ceará.

Lars Grael- velejador e medalhista olímpico. Entrevista exclusiva para Oceânicos)
Lars Grael- velejador e medalhista olímpico. Entrevista exclusiva para Oceânicos)

“O pessoal da vela tem uma referência muito forte do Ceará porque aqui é a terra dos ventos. Lugar que mais venta no Brasil. É impressionante. Tanto que já teve em 2005 um campeonato da classe Laser em Fortaleza e foi vencido, inclusive, pelo Robert Schneider. Agora, a federação internacional vai fazer o campeonato mundial aqui em 2027, mostra que o eixo de vela está forte e se movimentando no Nordeste. Não estou falando só em competição, medalha, remo, mas como isso também impacta positivamente no turismo, no trabalho, emprego e renda. Eu acho que é uma oportunidade muito interessante”, destacou o medalhista Lars Grael.

Os desdobramentos em relação às atividades do termo de intenção ainda estão em desenvolvimento, até o fechamento desta reportagem, não foi divulgado cronograma público para a implementação das ações. A discussão, porém, ocorre justamente em um momento em que diferentes regiões do litoral já observam o avanço das modalidades de vento e do turismo associado a elas.

Luís Fernando Bittencourt, presidente do Sistema Fecomércio Ceará, relaciona esse movimento ao fortalecimento de uma cadeia que envolve esporte, bem-estar, trabalho, educação, turismo, economia criativa e comunidades costeiras. “O Sesc Povos do Mar hoje já é uma referência de atuação dentro dos principais eventos do Sistema Fecomércio, ele busca identificar toda a cultura, toda a riqueza dos nossos povos litorâneos, desde Itapuí passando por Fortaleza, e chegando até Jericoacoara. Identificando nossos pescadores, nossos artesãos, nossas marisqueiras, e como essa cultura do nosso litoral pode fortalecer não só o desenvolvimento local, como a economia criativa, como o turismo”, destacou Luís.

Bittencourt cita ainda destinos onde essa relação já aparece de forma mais intensa: “aqui, no estado do Ceará, nós temos uma sorte, uma potencialidade muito grande para fortalecer todo esse turismo. Várias regiões do nosso litoral, como Cumbuco, Icaraizinho de Amontada e Fortim, já têm um crescimento muito grande dos esportes à vela, consequentemente, do turismo, e por isso a gente precisa cada vez mais estar mais próximo e fortalecer toda essa cadeia”.

Esportes e oportunidades no litoral

O litoral cearense também é território de cultura, trabalho e modos de vida ligados diretamente ao mar. Por isso, o crescimento dessa economia traz para o debate a importância da capacitação e da valorização das comunidades costeiras, pescadores, marisqueiras, artesãos e outros profissionais, para que também participem dessa cadeia.

Durante a 16ª edição do Sesc Povos do Mar, palestras e vivências culturais voltadas para o litoral cearense destacaram a importância da inclusão das comunidades nas atividades econômicas, esportivas e culturais. Paulo Falcão, consultor de Programação Social do Sesc, reforça que o turismo e a economia do litoral também podem ser fortalecidos a partir das práticas desenvolvidas pelas próprias comunidades.

“Quando nós falamos sobre a Economia do Mar, na Terra dos Verdes Mares, a gente sempre ressalta a importância das comunidades serem protagonistas dos seus processos de organização, criatividade e geração de renda. O Sesc valoriza o turismo, a cultura e valoriza uma economia voltada para as comunidades a partir de uma economia sustentável, como, por exemplo, o trabalho com fibras orgânicas, com minerais, como é o caso das áreas coloridas, Majorlândia, Morro Branco, e das panelas de barro, em Cascavel. Então, todos esses fazeres, essas identidades de cada região, se encontram formando essa grande teia no Povos do Mar, que existe há 16 anos e que forma grande rede social com mais de 200 comunidades, famílias e associações”, destacou Paulo.

Falcão ressalta que esse fortalecimento alcança tanto grandes empreendimentos quanto as próprias comunidades. “O Sesc acredita que tudo isso fortalece o turismo e economia sob diversas formas, não só o grande empreendedor, que começa a perceber um Ceará diferente, mas também assimila essas programações, tanto na grande rede hoteleira, como também nas comunidades como protagonistas. Percebemos, por exemplo, que a jangada não é só mais um instrumento de trabalho pesca, também é instrumento de passeio de turismo e integração. A gente leva essas culturas para a sociedade para inspirar a sociedade, mas também a sociedade reconhece essas culturas, sempre valorizando os locais, eles são os verdadeiros protagonistas”, afirma Paulo.

Durante sua passagem pelo Sesc Povos do Mar 2026, o medalhista olímpico Lars Grael também destacou, em entrevista ao Oceânicos, as oportunidades geradas pelo esporte e seu potencial para transformar a vida das pessoas.

A dimensão social também está presente em iniciativas diretamente ligadas à vela. Daniel Azevedo destaca projetos desenvolvidos pelo Iate Clube de Fortaleza em parceria com a Prefeitura e com a Escola Náutica, além do Vem Pra Vela, iniciativa que chegou ao fim neste mês de setembro depois de quatro temporadas e mais de 4 mil pessoas atendidas. O projeto aliou esporte, cultura náutica, transformação social e cuidado com o meio ambiente.

Com novos eventos no calendário, o crescimento do turismo esportivo, a valorização das comunidades costeiras e o Mundial de 2027 no horizonte, o Ceará vive uma oportunidade de ampliar ainda mais a relação entre os esportes à vela e a economia do litoral. O desafio é fazer com que essa projeção também se traduza em profissionais mais capacitados e bem remunerados, serviços fortalecidos, geração de renda e maior participação das comunidades que vivem e trabalham junto ao mar.

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