Instituto Winds for Future levou especialistas e iniciativas ambientais ao evento, contribuindo para o debate sobre sustentabilidade

Na última quarta-feira (10/09), Fortaleza tornou-se palco do evento Diálogos Rumo à COP30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas), promovido pela Prefeitura da cidade com apoio do Winds for Future. A programação foi composta por quatro painéis temáticos que trouxeram à tona debates urgentes sobre clima, justiça ambiental, transição energética e cooperação internacional.
A participação do Winds for Future (Ventos para o Futuro), por meio da iniciativa Kite for the Ocean, foi destaque ao contribuir com discussões qualificadas, trazendo especialistas como Gabriela Otero, líder do Movimento Blue Keeper e integrante do Pacto Global da ONU no Brasil, e João Eduardo Amaral, referência em sustentabilidade e economia azul.
O evento também contou com um ritual de limpeza indígena, realizado antes da cerimônia oficial pelo Movimento Potigatapuia — articulação de povos originários do Ceará que lutam pelo reconhecimento da Terra Indígena Serra das Matas, atualmente composta por 28 aldeias.
Na ocasião, o prefeito Evandro Leitão anunciou novas ações ambientais para Fortaleza, com foco em mitigação climática. Também foi assinado um memorando de entendimento entre a Prefeitura Municipal e a Rede Global C40, que reúne quase 100 prefeitos das principais cidades do mundo comprometidos com as metas do Acordo de Paris. Além disso, foi publicado o decreto de criação de mais cinco parques urbanos em Fortaleza: Parque Lagoa do Aracapé, Parque Lagoa do Urubu, Parque Zeza–Olho D’água, Parque Zoobotânico do Passaré e Parque Lagoa da Paupina.
Um dos destaques do evento foi o painel “Oceano, Cidade e Cooperação Internacional”, que contou com a participação de Felipe Matias, cientista-chefe de Economia Azul do Estado do Ceará; Maria Cristina, presidente da Colônia de Pescadores Z-8 de Fortaleza; Gabriela Otero, líder do Movimento Blue Keeper e especialista em Economia Circular; João Eduardo Amaral, líder em Sustentabilidade e Economia Azul; e Sérgio Rossi, professor titular do Labomar-UFC, especializado em recursos marinhos e oceanografia biológica.

As discussões abordaram temas como pesca artesanal, economia do mar e preservação oceânica. Felipe Matias destacou que a COP30 terá um Pavilhão do Oceano, espaço que reunirá comunidade científica, governos, sociedade civil e setor privado para debater a proteção dos ecossistemas marinhos e costeiros. “É preciso encontrar soluções para o clima e para a economia. Tudo tem dimensões macro e micro, e é preciso agir. Setenta e cinco por cento do planeta é oceano. É urgente proteger esse ambiente. Ter esse olhar para o oceano na COP me deixou feliz”, afirmou.
Maria Cristina, presidente da Colônia de Pescadores Z-8, é a primeira mulher a assumir a entidade em seus 104 anos de história. Ela destacou a necessidade de maior conscientização sobre a relevância histórica, cultural e econômica da pesca artesanal, defendendo ainda o fortalecimento da economia azul de forma sustentável.
O professor Sérgio Rossi disse estar preocupado com o avanço da degradação oceânica, que considera assustadora. Para ele, os Diálogos Rumo à COP30 funcionam como um alerta para a necessidade de ação imediata.
Gabriela Otero ressaltou a importância de soluções práticas como as ecobarreiras, iniciativa do Winds for Future em Fortaleza. Segundo ela, é fundamental incluir também os portos nessa reflexão. “Você pode não gostar de pisar na areia ou de ir à praia, mas para que sua compra online chegue até você, ela passa pelo mar. Da mesma forma que é necessário repensar e conhecer os aterros, precisamos refletir sobre a importância dos portos e nos aproximar deles como cidadãos urbanos, repensando essa relação. Os portos são grandes geradores de emprego e precisam estar no centro dessa discussão”, disse.
Para Gabriela, tudo está interligado: surfistas, bares, restaurantes, turistas, cidades e interior — todos os caminhos levam ao mar. Ela destacou que as cidades são cortadas por rios e que iniciativas como as ecobarreiras ajudam a impedir que toneladas de resíduos cheguem ao oceano. “Essas ações já mostram resultados, mas a relação é muito mais profunda. O oceano é o grande regulador climático do planeta. O mar envia a chuva que irriga plantações e garante o crescimento do milho e de outros cultivos. Sem a saúde dos oceanos, não há equilíbrio climático”, afirmou. Por isso, defendeu iniciativas urgentes que fortaleçam a economia azul e protejam os mares. “Precisamos pensar e agir agora, porque tudo está conectado”, concluiu.

Rômulo Alexandre, cofundador do Winds for Future, destacou a satisfação de Fortaleza liderar a primeira conferência pré-COP e lembrou os impactos do plástico nos rios. “Só os rios Ceará e Pacoti juntos despejam mais de 1.400 toneladas de plástico por ano no mar. Nossa ação de ecobarreiras busca impedir que esse material chegue ao oceano. Em dois anos, a iniciativa, que conta com apoio das prefeituras de Fortaleza e Caucaia, já retirou 200 toneladas de resíduos que iriam parar no mar. É urgente mudar a forma como usamos o plástico”, afirmou.
João Amaral, embaixador da Circle Economy para a América Latina e Portugal e consultor do Winds for Future, também reforçou a pauta da economia azul. “Esses diálogos rumo à COP30 são um chamado para a ação imediata. Já temos muitas pesquisas e discussões acadêmicas. Precisamos de ações concretas do poder público, da sociedade civil e do setor privado para construirmos juntos um modelo econômico sustentável, resiliente e prático para o nosso dia a dia”, destacou.
O evento também contou com um estande do Winds for Future em parceria com a Qair, produtora independente de energia limpa, e com o Estúdio BugaBoo, que apresentou uma experiência de realidade virtual imersiva. Com o uso de óculos especiais, os participantes eram transportados para uma narrativa em que viviam como extraterrestres chegando à Terra pela primeira vez e se deparando com o oceano, convidando-os a refletir sobre a importância da preservação marinha a partir de um olhar externo e sensível.
André Comaru, líder de sustentabilidade do Kite for the Ocean, iniciativa ligada ao Winds for Future, reforçou a importância do engajamento coletivo. “Estaremos em Belém, e esses diálogos são importantes. Funcionam como um aquecimento para chegarmos preparados à COP30 com a mensagem que temos que levar ao mundo”, disse.
A estudante Rebeca Sousa, de 17 anos, também comentou sua experiência. “Gostei muito de participar desse evento que antecede a COP30. Fiquei muito tocada pelas palestras sobre os povos originários e a preservação do oceano. Espero que as pessoas se conscientizem mais sobre sustentabilidade e que o poder público de fato promova ações urgentes para enfrentar esses problemas”, afirmou.
O Diálogos Rumo à COP30 funcionou como preparação para as discussões da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, que ocorrerá de 10 a 21 de novembro, em Belém (PA). A conferência reunirá representantes de 198 países signatários da Convenção do Clima. A escolha da Amazônia como sede amplia a visibilidade das discussões no Brasil e reforça a necessidade de articulação das cidades brasileiras em torno de soluções concretas para enfrentar a crise climática.
